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Dra Monica Nogueira conta como foi seu contato e experiência com a técnica de Ponseti.

Meu primeiro contato com a técnica foi em março de 2000, através do Dr John Herzemberg, da Universidade de Maryland, em Baltimore, Estados Unidos, onde fiquei por 7 meses como fellow e tive a oportunidade de observar e participar diretamente das manipulações e confecção dos gessos; observei, na ocasião, que realmente os resultados obtidos diferiam em muito dos resultados obtidos com as técnicas de manipulações e gessos convencionais que tive contato em minha formação. Esse ortopedista estava realizando a técnica há 6 meses, e estava muito entusiasmado com os resultados. Ele recentemente tinha submetido seus casos à avaliação pelo próprio Dr Ponseti e seu grupo, que consideraram que a técnica estava sendo realizada adequadamente.

No Congresso de Ortopedia Pediátrica realizado em San Francisco em maio do mesmo ano, o tratamento conservador do pé torto congênito idiopático foi um dos temas mais importantes do congresso, merecendo um simpósio de 6 horas. Dr Ponseti apresentou seus resultados com a técnica, já com seguimento de trinta anos, mostrando pés indolores, flexíveis e funcionais. Dr Alain Dimeglio, da Universidade de Montpelier, na França mostrou também outra técnica baseada em manipulações e esparadrapagem, introduzindo o uso de um aparelho de movimentação passiva contínua, que é cuidadosamente adaptado ao pé da criança bem pequena. O uso de um aparelho para cada criança por várias horas ao dia inviabilizou seu uso em muitas localidades, sendo esta uma das críticas feitas à aplicação deste método em paises em desenvolvimento.
O tratamento conservador pela técnica de Ponseti não tem alto custo, nem necessita de tecnologia de ponta, por vezes onerosa. Ele é baseado em manipulações artesanais por mãos treinadas, e uso de órtese – botinhas conectadas a uma barra.

Em março de 2001, durante o Congresso da Academia Americana em San Francisco, Dr Ponseti participou pessoalmente de uma mesa redonda sobre o tratamento conservador, e foi muito elogiado por todos. Novamente, as palestras sobre o tratamento cirúrgico conferidas abordavam mais como tratar as complicações e as recidivas, e tiveram menor destaque nas discussões.
Em 5 de setembro de 2001, como parte do curso de deformidades ósseas promovido pelo grupo de Baltimore, agora já no Rubin Institute for Advanced Orthopaedics, Sinai Hospital, houve um Simpósio de Tratamento Conservador do Pé Torto Congênito, e o Grupo de Iowa, com Dr Fred Dietz representando o Dr Ponseti . Esse simpósio teve 300 inscritos de várias nacionalidades; um dos destaques foi a presença do Dr Norris Carroll, uma autoridade internacional por sua atuação no tratamento cirúrgico do pé torto congênito (Toronto Hospital for Sick Children, Canadá e Memorial Hospital of Chicago, Estados Unidos). Esse “pai do tratamento cirúrgico”participava desse simpósio sobre tratamento conservador, e sua palestra foi “The Wound I believe is a disease”, ou seja , “a ferida cirúrgica é uma doença, na minha opinião”, reinforçando a importância e o impacto do tratamento conservador do pé torto congênito idiopático nos dias atuais.
Outro destaque deste simpósio, além dos grupos de “workshop” com modelos de plástico para manipulação e confecção de gessos, dos quais fui monitora, foi a presença do Grupo Francês de Montpellier, através do Dr Didier Moukoko representando o Dr Alain Dimeglio, e também o Dr J. Norgrove Penny, um canadense que vive e trabalha na Uganda, no continente africano.
O Dr Penny mostrou os resultados do projeto para tratamento do pé torto na Uganda, onde uma população de 20 milhões de habitantes tem mil casos anuais de pé torto, e cerca de dez mil casos não tratados.
Seu projeto me interessou muito, uma vez que nosso pais também tem situação econômica não tão favorável como nossos colegas norte-americanos e europeus, e a população não alcançada por atenção médica é grande, resultando em muitos casos não tratados.
A estratégia apresentada por eles foi desenvolver uma política de saúde de caráter preventivo da deformidade, informando e orientando as maternidades e hospitais pediátricos, treinar profissionais aptos a realizar as manipulações e gessos, treinar os médicos locais a realizarem tenotomias percutâneas, e desenvolver uma órtese com produção local que fosse acessível a estes pacientes. Eles escolheram a aplicação do método de Ponseti devido a este ser conveniente para um país em desenvolvimento e não necessitar de recursos tecnológicos onerosos; além disso, o método evita a cirurgia, de custo maior. Os resultados a longo prazo são comprovadamente melhores, e a técnica pode ser sistematizada para treino em massa. Esse tratamento está sendo realizado na Uganda desta forma há 4 anos, e conta com a ajuda de organizações internacionais, como o Rotary International e a Agência de Desenvolvimento Interacional Canadense (a CIDA), em associação com o Ministério da Saúde da Uganda e o Departamento de Ortopedia da Universidade de Makarere, em Kampala, Uganda.

Neste mesmo simpósio, tive a opotunidade de apresentar ao Dr Herzemberg meus resultados obtidos com a realização desta técnica aqui no Brasil, em São Paulo, e em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, onde trabalhei durante o ano de 2001.
Ele os aprovou e me indicou para o Dr Ponseti, que me incluiu na lista dos médicos ortopedistas habilitados para realizar essa técnica.

Estou certa de que essa técnica esta tendo e terá cada vez mais importancia no tratamento dessa condição em nosso país. Nas páginas desse site, direcionadas aos pais e a colegas da área da saúde, procuro fornecer informações claras e precisas sobre o método.
Convido-os a participar ativamente: Críticas, sugestões e comentários são bem vindos.

Dra Monica Paschoal Nogueira